quinta-feira, 5 de outubro de 2017

ELE ACHOU UM SORRISO

      As cidades são lugares com uma grande diversidade de pessoas e locais, estranhos a alguns, peculiares, e, também, familiares a outrem. Mesmo uma cidadezinha de um interior qualquer, pode guardar ou trazer surpresas, ocultar segredos. O começo é tão comum e igual a qualquer outro inicio, mudando apenas o desenrolar da história, até que no fim, prova serem os meios justificáveis, mesmo que incomuns, para fazer o dia valer.
      Ao que parecia, seria simplesmente um dia comum, nada de anormal, sem estranhezas ele vira, até que na penumbra da noite já anunciada, ouvem-se uns estalos, deixando-o curioso. Seguiu aquele som de folhas secas quebrando, se orientando como se estivesse à sua direita, mais que, de longe, não pudera ver o motivo de sua procura, o que lhe chamava a atenção. A pracinha do centro da cidade, nessa hora parecia maior que o real tamanho, pois, ele nunca alcançava a fonte daquele ruído intrigante.
      Eis que passados alguns minutos, não muito certo, mais foram uns cinco, que mais soavam como meia hora, até ser encontrada uma pequenina, uma menina franzina e sorridente, até mesmo seus olhinhos castanhos pareciam soltar gargalhadas. Ela brincava sozinha, corria tão rápido quanto o vento, talvez seja essa a razão de não achá-la com facilidade. Também cantarolava, balbuciava uma melodia desconhecida, mais que o fazia ter um sentimento nostálgico. Sua voz era doce.
      A pequena que estava diante dele, trajava um vestidinho branco, tinha um laço bem bonito prendendo seus cabelos, de fios bem finos e compridos. Mesmo “miúda”, tinha boa aparência e não tinha um ar de quem vivesse naquele lugar, sequer tinha jeito de pertencer ao lugarejo. Talvez ela tivesse apenas seis anos.
      Ele se aproximou com calma e sutileza, a fim de que não assustasse a garotinha e chamou-lhe a atenção, começando um diálogo simples e amistoso, dizendo que gostava de brincar ali também. Depois de pouco tempo de conversa, ele voltou no tempo, era uma criança crescida, até o instante que retornou ao seu eu de costume, quando veio à sua mente uma preocupação. O que a menininha fazia alí sozinha e àquela hora? A resposta a tal indagação foi no mínimo surpreendente, visto ter-lhe dito não ter ou precisar de ninguém mais, apenas dele.
      O estado de alegria que lhe tomara instantes à frente, reconfigurou-se em preocupação. Como uma criança pode precisar apenas de um estranho? Quantas pessoas poderiam estar à sua procura? Qual a origem de sua nova amiguinha? Diante de um dilema tão grande, olhava aquele rostinho despreocupado e brincalhão.
      Em um determinado momento, ela abriu o maior dos sorrisos, dava até pra ver que lhe faltavam os dois dentinhos incisivos. Era mesmo uma “janelinha” encantadora. Quando terminou de sorrir, disse-lhe que sabia de uma coisa sobre ele e estava lá por sua causa. Com uma serenidade e ternura infindável, contou um segredinho ao ouvido do seu novo amigo, sabia que ele estava guardando uma dor.
      O homem sorria em todo lugar, pra todo mundo, no entanto, trazia consigo, um coração apertado, de uma forma que sufocava qualquer choro. Sentaram lado a lado e uma única lágrima corria seu rosto. Foi então que um abraço apertado e carinhoso, encerrou o ato, fazendo a dor se acalmar pela primeira vez, depois de um bom tempo. A pequenina disse bem baixinho, saber pelo que seu amigo passava, conhecia o motivo da dor que guardara do mundo.
      Ao passo que o homem tranquilizou-se, lembrou não ter se apresentado nem perguntado o nome da garotinha. Sorridente, como sempre, falou que depois contava como se chamava, mais que naquela hora, precisava ir.
      Ele se distraiu por uma fração de segundos, se recobrou de sua atenção quando ouviu um bater de asas e sentiu o sopro de uma brisa. Seguido esse instante, sua amiguinha não estava mais alí. Ao piscar dos olhos, como numa mágica, estava tudo como antes, a noite caíra completamente sobre o céu, no relógio, apenas alguns poucos minutos tinham se passado. A sensação de que o tempo quase parou foi instantânea. Não havia nada mais além de levantar-se da relva e caminhar de volta pra casa.
      O dia se encerrou da mesma forma de sempre, apenas não fora mais um dia comum. Um presente lhe havia sido dado de uma forma inesperada, porém, sabia que seria guardado pra sempre, num embrulho que, a partir de então, estaria bem enfeitado, por aquele sorriso “banguelinho” de outrora. Dessa vez, consigo, ele trazia a paz.


Marcone da Silva Pereira, Conceição do Jacuípe, Bahia, Brasil
05 de outubro de 2017.

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