quinta-feira, 5 de outubro de 2017

UMA VITRINE NO MEIO DO CAMINHO

A maior parte das emoções e sensações do cotidiano são efêmeras, são tão rápidas quanto os transeuntes a passos largos, sobre calçadas, ruas e vielas. O frenesi incutido na mistura das vozes que preenchem o vazio quase imperceptível do meio que cerca cada indivíduo. São muitos os olhares, mirando todos os ângulos, vindos de todas a direções, meros expectadores desatentos.
O fulgor é tamanho que nada parece torná-lo ameno, não pode se “ver” o mínimo do natural, se quer é ouvido o que se pode descrever em uma onomatopéia. O humanismo se tornou tão dominante, que pegadas podem marcar o concreto seco com marcas profundas.
Em meio a todo esse movimento frenético, que se irradia, vem em ondas, por uma fração de segundo, alguém para, e, por alguma razão não explicada, algo incomum lhe toma de assalto, faz com que se atente, ao que parece de longe, um vestido branco. De tudo o que estava por traz da vitrine, porque apenas uma peça seria a distração que lhe tirara da desatenção, do desinteresse habitual?
A repentina mudança de alvo, parecia até mesmo desnecessária, afinal era só mais um exposto à venda em uma loja qualquer. Dada sua curiosidade deveras aumentada, num impulso achou-se passo a passo mais próximo sem ter o controle sobra as próprias pernas, que assim como o coração, seus movimentos eram involuntários.
Chegado ao destino não programado, havia uma silhueta esguia quase que totalmente encoberta, pelo mesmo manequim que expunha a peça que lhe chamara a atenção, instantes antes desse. Sua curiosidade mudou de lugar, pois, aquela silhueta tinha um sorriso lindo. Se sua mente pudesse ser vista, certamente se viriam luzes intensas, suas sinapses deviam ser muitas, com certa estranheza, flashes de uma vida futura passavam diante dos olhos.
Finalmente o êxtase estava sob controle, as emoções estavam como de costume, repentina e inesperadamente, um susto. Aquela peça outrora longínqua, que lhe trouxera até aquele exato ponto, era um, simples e muito bonito, vestido de noiva.

Marcone da Silva Pereira, Conceição do Jacuípe, Bahia, Brasil
05 de outubro de2017.


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